O oitavo mês dos
calendários juliano e gregoriano poderia ser pulado na política brasileira. Com
os seus longos 31 dias, agosto entrou para a História do Brasil marcado por
tragédias. O mês viu de tudo: de suicídio e renúncia de presidentes da
República até mortes de ícones da política nacional. Entre eles, o
ex-presidente Juscelino Kubitschek e Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco
e símbolo da esquerda no país, morto no mesmo dia 13 de agosto do seu neto,
Eduardo Campos, vítima de acidente na queda de avião em Santos-SP no ano
passado, em plena campanha presidencial.
Há seis décadas, no dia
24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas se matou, no Palácio do
Catete, com um tiro desferido no próprio coração. O líder da Revolução de 30,
pai dos pobres e fiador da modernização do país, virou mito e adiou, por dez
anos, a chegada dos militares ao poder. Uma comoção nacional tomou o Brasil
inteiro pela morte de Getúlio, então presidente eleito. Ele voltara nos braços
do povo, vitorioso nas urnas em 1950 — embalado pela marchinha “bota o retrato
do velho outra vez/ bota no mesmo lugar” —, cinco anos após o fim do seu
período de ditador no Estado Novo (1937-1945). Somente em 1964, com o golpe que
depôs João Goulart, começaria o regime militar, que se prolongou até 1985.
Por sinal, Arraes, um
mito nas ruas de um dos mais politizados estados do país, também voltaria ao
poder, numa eleição histórica para governador, em 1986. Após anos de exílio, na
verdade, a população estava devolvendo ao avô de Eduardo Campos o que os
militares haviam tomado em 1964, quando, governador, fora deposto. Ocupante por
três vezes o Palácio do Campo das Princesas (sede do governo estadual), Arraes
morreria em 13 de agosto de 2005.
Três anos antes do
golpe de 64, uma crise política sem precedentes sacudiu o Brasil. Eleito com o
discurso de que varreria a corrupção, Jânio Quadros renunciou à Presidência, em
25 de agosto de 1961, por considerar inviável governar sob a Constituição de
1946. Ele não tinha apoio das esquerdas, do PSD e, muitas vezes, até da UDN.
Alguns historiadores defendem a tese de que, ao deixar o governo, Jânio
planejava voltar com o apoio do povo, num golpe branco que não vingou. Em meio
a pressões dos militares e à campanha legalista comandada pelo governador do
Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, Jango assumiu. A solução foi o
parlamentarismo, negociado para garantir a sua posse, e com Tancredo Neves como
primeiro-ministro. Com poderes reduzidos, Jango trabalhou pela volta do
presidencialismo. Um amplo apoio também se firmava pelo “não” ao
parlamentarismo no plebiscito: Carlos Lacerda, JK, Arraes e Brizola, por
exemplo. Todos interessados em uma eleição em 1965, que não ocorreu devido ao
golpe militar.
Não foi em agosto, mas
quase. Um dos líderes do regime militar e seu primeiro presidente, o marechal
Humberto de Alencar Castelo Branco morreu em 18 de julho de 1967, também num
desastre aéreo. Na época ex-presidente (Costa e Silva o sucedera em março no
Palácio do Planalto), Castelo Branco estava no avião que se chocou com um jato
de treinamento da FAB, em Fortaleza. O acidente ocorreu às 9h45m, quando o
avião do governo do Ceará fora buscar o ex-presidente em Quixadá, na fazenda da
escritora Rachel de Queiroz.
Durante os anos de
chumbo, um novo desastre abalou o país. No dia 22 de agosto de 1976, o
ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro na Via Dutra.
No quilômetro 165 da rodovia, o Opala que o levava de São Paulo para o Rio
ultrapassou a mureta divisória e bateu de frente num caminhão. Na época, a
polícia chegou a investigar a hipótese de um ônibus ter batido de propósito na
traseira do carro, dirigido por Geraldo Ribeiro. Porém, o motorista do coletivo
acabou absolvido por falta de provas. Em 1996, o corpo de JK foi exumado, e o
laudo oficial concluiu que ele morrera num acidente .
Dois anos antes de
morrer, JK recuperara seus direitos políticos, cassados após o golpe de 64, e
pretendia voltar à vida pública. Para desgosto de multidões que choraram a sua
morte pelo país, o sonho havia acabado. Em seu funeral, em Brasília, 300 mil
pessoas se despediram do líder mineiro, cantando a música que marcara a sua
vida: o “Peixe vivo”.
Gustavo Villela/ O Globo

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